O comportamento da imprensa nas eleições

Estamos entrando na última semana antes das eleições. Um pleito sangrento e que deixa uma divisão social (não falo das divisões de classe, mas sim entre pessoas do mesmo setor) muito latente e até mesmo preocupante. E se for confirmado o segundo turno entre Bolsonaro e Haddad, isso pode piorar. Muito está sendo comentado sobre possíveis ondas que possam alterar o panorama (aposta de Ciro e Alckmin), que caracterizaram os pleitos municipais de 2012 e 2016 e as eleições presidenciais de 2010 e 2014. Mas não estou aqui pra falar sobre isso (caso seja confirmada essa onda, falarei disso). Mas vou falar sobre a imprensa. Sobre o seu comportamento durante a campanha. Muitos apontam manipulação e matérias tendenciosas e reivindicando a famosa neutralidade da imprensa, ou seja, a objetividade.

É um assunto polêmico e que dá muito pano pra manga. E tem muita manga pra pouco pano.

Antes: o comportamento da imprensa nas eleições 2018 é o mesmo dos últimos pleitos. Mudam-se somente os personagens, mas as atitudes são as mesmas.

Certa vez, li se os jornalistas estavam envergonhados com o comportamento da imprensa nessa eleição. Não, não me sinto envergonhado pelo comportamento dela, por um simples fato. Era esse comportamento que esperava dos meios de comunicação. Em 2016, escrevi o TCC sobre manipulação da imprensa em pleitos eleitorais. Por isso, que esperava esse comportamento. Detalhe: isso é até repetido. Basta olhar a história. O marketing eleitoral sempre teve e ainda tem muito peso para alterar o panorama.

Primeiro vamos definir objetividade. Objetividade é quando se é fiel ao fato, sem perder tempo com especulações. Assim, quando o repórter vai cumprir a sua pauta, ele escuta as testemunhas, ouve especialistas. Ou seja, o jornalista não vê o fato na hora do ocorrido. Ele escuta histórias. Lembre-se: todo ponto de vista é a vista de um ponto. E na hora de escrever, o jornalista é influenciado (mesmo sem perceber) pelo contexto que viu o ocorrido, pelo contexto em que vive, da maneira em que foi criado. Assim, vários elementos subliminares interferem no momento do relato. Isso não importa o meio em que vive.

Outro ponto que se precisa deixar claro é que cada meio tem a sua posição e muitas vezes, eles não coincidem. Neste ano, O Estado de São Paulo já soltou editorial afirmando o medo da volta do PT ao Palácio do Planalto (clique aqui), enquanto O Globo e Folha de São Paulo tentam noticiar fatos negativos de ambos os lados, mas mostram críticas frequentes a Bolsonaro. Já a Revista Veja atua da mesma maneira de 2014. Mais uma vez, às vésperas de um pleito, solta uma edição controversa e que pode causar prejuízos a um candidato (em 2014, na semana do segundo turno, houve a famosa edição “Eles sabiam de tudo” em que Dilma e Lula eram acusados de saber de todo o esquema de corrupção do governo, para relembrar, clique aqui – não estou comparando Dilma e Bolsonaro, apenas para deixar claro em que ambos os casos, as provas eram controversas).

O fato é que os meios de comunicação já tentaram atuar em todos os pleitos desde 1982.

Em 1982, o famoso caso Proconsult em que a Rede Globo, apoiadora de Moreira Franco, foi acusada de tentar alterar o resultado do pleito através da Proconsult (responsável pela contagem dos votos no computador. Seria subtraído os votos de Brizola ou muitos dos votos recebidos por ele, seriam considerados nulo), para que Leonel Brizola não assumisse o governo do estado do Rio de Janeiro (para relembrar o caso, clique aqui ). A Globo nega o fato até hoje.

Em 1989, Collor não recebeu apoio de toda imprensa. Se verificar os meios da época, havia quase uma guerra entre a Folha de São Paulo e Collor. Houve sim, um apoio da Globo a Collor na famosa edição do debate do segundo turno. E isso teve muito efeito. Uma edição tendenciosa, exibida no Jornal Nacional, no dia seguinte ao debate. O próprio Boni, anos depois, admitiu isso (leia as declarações de Boni). Depois disso, nunca mais houve exibições de compactos de debates nos jornais da emissora carioca.

Em 2006, o segundo turno da eleição presidencial foi considerado como consequência da imprensa. Em virtude da cobertura do caso dos aloprados do PT. e do dossiê contra o PSDB (clique aqui). A Carta Capital colocou como manchete: “A trama que levou ao segundo turno”. Na época, a reeleição do presidente Lula era tida como favas contadas no primeiro turno.

Em 2014, a partir do momento em que foi consolidado o cenário do segundo turno entre Dilma e Aécio, claramente, alguns meios de comunicação passaram a defender abertamente a eleição de Aécio Neves. O Estado de São Paulo, inclusive, publicou um editorial, que fala abertamente que o melhor para o Brasil era a vitória de Aécio. A Veja colocava Aécio como herói e que ele poderia salvar o país.

Em outras eleições aconteceram também outros casos, mas fico por aqui. Cabe o registro das entrevistas do Jornal Nacional. Em 2014, o modo das entrevistas foi muito elogiado, em 2018, não. Não, o formato não foi errado. Foi voltado para um público que quer ver o candidato como honesto, para poder decidir o seu voto. Isso gera muitas reclamações, principalmente, pelo Haddad e pelo Ciro, candidatos que foram interrompidos mais vezes.

O fato é que a imprensa sempre atuou do mesmo jeito que está fazendo em 2018. A diferença é a internet. Então, leia mais de um lado, leia diferentes meios (confesso que leio de tudo – Veja, IstoÉ, Época, Carta Capital, O Estado de São Paulo, O Globo, Folha de São Paulo). Desconfie de fake news, leia os editoriais. Mas a capacidade da imprensa de manipular resultados eleitorais é muito menor do que você pensa.

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