Covid-19: o caso do enterro dos caixões vazios

Covid-19. Esse é o assunto do momento. Afinal, vivemos em uma pandemia. E os números de casos e mortes crescem em ritmo assustador. E com isso, em proporção semelhante a quantidade de notícias. Sejam elas reais ou não. E começaram a circular tanto no WhatsApp quanto no Facebook, supostas “informações” de enterros com caixões vazios em Manaus, no Amazonas, em Marabá, no Pará, em São Paulo, em Belo Horizonte, Minas Gerais. Esse é o segundo assunto da série “A pandemia fake news”.

Uma série de publicações com boatos a respeito das vítimas do covid-19 invadiram as redes sociais. Caixões estariam sendo enterrados vazios para que os governantes locais (só mudam os personagens – ou são os governadores ou são os prefeitos, como no caso de Belo Horizonte) ganhassem destaque, exercendo um papel. São informações falsas ou de anos anteriores que são compartilhadas massivamente e busca minimizar ou até mesmo contestar o atual cenário de mortes em virtude da covid-19 no Brasil.

Segundo um levantamento realizado pelos grupos Monitor do Debate Político no Meio Digital, da Universidade de São Paulo (USP), e Eleições Sem Fake, da Universidade Federal de Minas Gerais, aproximadamente 30% de vídeos e fotos compartilhadas sobre a covid-19 em grupos de WhatsApp, na última semana de abril, eram fake news sobre os caixões vazios. A apuração foi feita em mais de 500 grupos do aplicativo de conversa. Nesses casos, o Amazonas, que enfrenta colapso no sistema de saúde, é um dos mais citados nas fake news.

Covid-19: caixões enterrados vazios em Manaus

 

“Estão enterrando caixões vazios para causa pânico a população do amazonas. Denunciaram hoje no jornal da band”
Legenda imagem compartilhada no Facebook que até as 15h do dia 23 de abril de 2020 tinha mais de 13 mil compartilhamentos

Está circulando nas redes sociais, uma fotografia que mostra uma trincheira com caixões enfileirados no Amazonas. A legenda afirma que, de acordo com uma reportagem do Jornal da Band “estão enterrando caixões vazios para causar pânico na população”.

Na edição anterior à publicação, do dia 20 de abril, e nas duas seguintes, dia 21 e 22, o Jornal da Band não exibiu reportagens “denunciando” caixões sendo enterrados vazios em cemitérios do Amazonas.

Segundo a Agência Lupa (clique aqui), tanto a direção da Band Amazonas quanto a direção da Band Nacional negaram que tiveram realizada alguma denúncia deste tipo.

A prefeitura de Manaus afirmou que isso não passa de fake news.

“Denuncia gravíssima. No amazônia. Caixões vazios. Só pra causar pânico na população com número alto de óbito por covid-19”

Texto em post no Facebook que, até as 12h de 29 de abril de 2020, tinha mais de 6,5 mil compartilhamentos

A informação é falsa, porque o caixão vazio aberto não tem nenhuma relação com a pandemia de coronavírus.

A imagem original foi registrada pelo fotógrafo Milton Rogério e publicada no site São Carlos Agora em 30 de maio de 2017. Naquele período, a polícia descobriu que um grupo de pessoas em São Carlos, interior de São Paulo, forjou a morte de uma moradora de rua para ganhar o dinheiro do seguro de vida.

De acordo com a reportagem do UOL, o grupo liderado por um ex-agente funerário fez seis apólices no nome da mulher com valores entre R$ 800 mil e R$ 1,4 milhão. Alguns meses antes, eles se aproximaram da moradora de rua com o pretexto de ajuda-la, a convenceram a solicitar a segunda via do RG e do CPF no Poupatempo da cidade paulista. O grupo reteve os protocolos e, mais tarde, retirou os documentos, sem que ela soubesse. Um período depois, a moradora de rua viajou para Matão, outra cidade do interior de São Paulo.

Tendo o apoio de um médico, a quadrilha falsificou o atestado de óbito e fez o “enterro” da mulher no cemitério Nossa Senhora do Carmo em caixão lacrado por ter “ordens médicas”.

Um tempo depois, uma integrante do grupo tirou a certidão de óbito em um cartório da cidade, que serviria para poder resgatar o dinheiro das apólices. Mas, a Polícia Civil conseguiu desvendar o golpe. Ao longo da investigação, o caixão foi desenterrado e ficou comprovado que não corpo, como a foto compartilhada nas redes sociais mostra. Dentro do caixão havia somente uma pedra e um saco de serragem. O site São Carlos Agora mostra toda operação em uma galeria de imagens.

Covid-19: foto flagra um caixão vazio sendo enterrado em Manaus

“Esses coveiros são muito fortes, entre o peso do caixão e o corpo é no mínimo 4 pessoas para carregar. (…) Caixões vazios são enterrados para os prefeitos cobrarem falsos enterros ao Governo Federal e com isso seguir com a máquina de roubo de dinheiro público Federal”

Legenda de post no Facebook que, até as 18h de 30 de abril de 2020, tinha 89 compartilhamentos

Outra foto que está circulando pelas redes sociais é de um enterro em um local não identificado em que um grupo de homens, com trajes protegidos contra o covid-19, com dois deles carregando um caixão.

A legenda afirma que são necessárias, pelo menos, quatro pessoas para esse trabalhado, “provando” que o caixão estaria vazio. A motivação disso seria uma “trama” para cobrar o dinheiros dos enterros do governo federal.

A informação é falsa. O caixão que é mostrado na foto não está vazio. A cena mostra o sepultamento da dona de casa, Esther Melo da Silva, de 67 anos, vítima de covid-19, no cemitério Parque Tarumã, em Manaus/AM, no dia 10 de abril. O enterro foi acompanhado por uma equipe do site de jornalismo independente Amazônia Real e teve como resultado a reportagem “Coronavírus: à espera de um leito; morte de Esther Silva revela colapso do sistema de saúde de Manaus” com autoria de Izabel Santos, publicada em 14 de abril.

A reportagem fala sobre as dificuldades enfrentadas pela dona de casa para ter atendimento no sistema de saúde da capital do Amazonas. Ela morreu em 09 de abril no Serviço de Pronto Atendimento e Policlínica Danilo Corrêa, sem conseguir uma vaga para o Hospital e Pronto Socorro Delphina Rinaldi Abdel, centro de referência para tratamento da covid-19 em Manaus. A espera por um leito durou cinco dias, mas a transferência não aconteceu. O sistema de saúde amazonense entrou em colapso em abril, em virtude da grande quantidade de casos da doença.

Covid-19: covas foram abertas em Marabá/PA para o enterro de caixões vazios

“Governo do Para emterou 30 caixãos (sic) em Belem sem nenhum corpo!”
Texto da mensagem que circulava no WhatsApp em 30 de abril de 2020

Está circulando pelo WhatsApp, uma foto em que mostra uma mulher gritando com outra pessoa, de máscara, em frente a uma retroescavadeira. A legenda afirma que a cena ocorreu em Marabá, no Pará, e que o prefeito queria enterrar caixões vazios. O texto também informa que a essa mesma ação teria ocorrido em Belém, capital do estado.

A informação é falsa. Não existe nenhum registro ou denúncia de qualquer meio de comunicação apontando que caixões foram enterrados vazios em Belém, no Pará.

Caso de Marabá

“E prefeito de Maraba Quiria fazer o mesmo em morada nova! Mas a máquina foe impedida de Abril às covas pela população! Isso no horário noturno!Meu Deus pra que isso gente. isso é pra pedir mais verbas e jogar a culpa da ipedemia no Bolsonaro, maldita. esquerda usa a vidas das pessoas para obter lucros”
Texto da mensagem que circulava no WhatsApp em 30 de abril de 2020

A informação é falsa, o vídeo não. A imagem que circula no WhatsApp foi extraída de um vídeo compartilhado em um grupo fechado. De fato, o vídeo foi gravado em Marabá, no Pará, daí o vídeo não ser falso. Mas, ele não tem relação com enterros sem corpos. A Prefeitura de Marabá, em nota, afirmou que a informação de que caixões estariam sendo enterrados vazios “não procede”.

O vídeo foi feito em 23 de abril por moradores da Vila Murumuru, na zona rural de Marabá. Nessa ocasião, eles protestaram contra a abertura de novas covas e reclamaram da falta de transparência da prefeitura. Segundo o portal G1, os moradores afirmaram que a prefeitura não havia informado o motivo da abertura das novas covas e nem de onde viriam os corpos. Eles acreditavam que seriam óbitos exclusivos de covid-19.

Naquela ocasião, a Prefeitura de Marabá afirmou, em nota ao G1, que a Secretaria de Saneamento Ambiental havia autorizado a abertura de novas valas e que seriam alocados corpos de futuros óbitos que possam vir a acontecer, independente da causa da morte. Segundo a prefeitura, isso se trata de uma operação de rotina que não tem nenhuma relação com a covid-19.

Covid-19: Caixões enterrados com pedras e papelão

“FORAM DESENTERRADOS DIVERSOS CAIXOES NO CEMITERIO DE BH E ENCONTRARAM PEDRAS E PAPELAO DENTRO! E DAI’ , HIPOCRITAS!”
Texto publicado no Facebook que, até às 16h do dia 30 de abril de 2020, tinha sido compartilhado por mais de 16 mil pessoas no Facebook

A informação é falsa. A assessoria de imprensa da prefeitura de Belo Horizonte informa, por meio de nota, que não existe registro de caixões vazios sendo desenterrados em qualquer cemitério da cidade.

A prefeitura ainda afirmou que cada cemitério realiza sepultamentos de covid-19, respeitando todas as medidas preventivas recomendadas pelo Ministério da Saúde.

A única história que trata de um caso similar foi publicada pelo BHAZ. A reportagem, além de não ter ocorrido em Belo Horizonte, afirmava completamente o contrário: em virtude de notícias falsas, pessoas com familiares mortos por covid-19, em Manaus, estavam abrindo caixões que, por segurança, deveriam ficar lacrados. Nenhum deles estava vazio.

Covid-19: Caixões sepultados vazios em São Paulo e no Amazonas

“Caixões ‘sepultados’ vazios em SP e no Amazonas”

Legenda de post no Facebook que, até as 13h de 5 de maio de 2020, tinha mais de 1,9 mil compartilhamentos

A informação é falsa. Os posts são antigos. São exatamente de 2015 e 2018 e as fotos não foram tiradas em São Paulo e no Amazonas. Por isso, não há relação com os enterros de vítimas de covid-19 que ocorrem no país.

A imagem mostra um caixão aberto com a tampa na vertical, do lado direito, circula pela internet em fevereiro de 2018, isto é, dois anos antes do início da pandemia.

O caixão teria sido encontrado aberto à beira da estrada, entre os municípios de Arari e Vitória do Mearim, no Maranhão, com sinais de que foi usado em um enterro. Nesse período, blogs locais exibiram essa foto ao lado de outra, tirada de um ângulo diferente, dizendo se tratar de um desaparecimento de um cadáver.

A imagem do caixão aberto na diagonal foi extraída de uma reportagem do telejornal JPB 1ª edição, exibido pelas TVs Cabo Branco e Paraíba, afiliadas da TV Globo, na Paraíba, em 17 de agosto de 2015. O recipiente havia sido encontrado na calçada por moradores do bairro de Cruz das Almas, localizado em João Pessoa, ao lado do cemitério São José. Ele teria sido abandonado na rua por estar infestado de cupins. As imagens mostram uma série de buracos na madeira.

E a próxima reportagem da série será sobre como as fake news afetam o nosso voto.

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Para acessar a primeira reportagem da série, clique aqui

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